Crônica Política – Crise atual, Crise passada: entre 2015 e 1837.

regencia feijo

Interessante observar alguns dos diferentes aspectos da crise política atual no Brasil: vitória de Dilma na eleição de 2014 por uma diferença apertada em relação a Aécio, um executivo incapaz de corresponder aos anseios de parcela significativa de quem o elegeu, aliados acusando o governo de aplicar medidas defendidas por aqueles foram derrotados nas urnas, opositores acusando a presidenta de ser pactária com grupos sociais e/ou Estados ditos “radicais”, como sem-teto, sem-terra e/ou Cuba e Venezuela.

Acho curioso como muitas pessoas têm reagido a esse cenário de crise como se fosse algo surpreendente ou inédito em nossa história. Não é.Essa linha de pensamento reflete, entre outras coisas, a falta de conhecimento da nossa própria história política.

A situação é agravada pela pressão das massas populares, influenciadas – ou manobradas – por grandes grupos midiáticos controlados por algumas poucas famílias poderosas e a instabilidade político-institucional é crescente graças às divergências entre os membros do legislativo em um congresso no qual a linha entre aliados e opositores é tão tênue que fica difícil saber de qual lado partem os bombardeios constantes contra a presidenta.

A eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara coroa a crise e aumenta o clima de instabilidade: um opositor que não tem pudores em manipular o congresso por meio de manobras políticas contra o governo, oriundo do partido que em tese seria o maior partido da base aliada, o PMDB. A eleição de Cunha escancarou para o público os rachas no partido, deixando claro que nem de longe o governo pode contar com ele.

A imagem predominante é a de uma Dilma acuada e com dificuldades imensas para governar, refém de um cenário que limita suas possibilidades de ação e, o que é pior, pelo menos em termos da articulação de uma base de aliados, sem poder mais contar efetivamente com o apoio de seu maior aliado político, o ex-presidente Lula, que já andou fazendo críticas duras à presidenta.

Sofre também com a sanha golpista – sim, golpista – de uma oposição que não aceitou ainda o resultado das urnas e pressiona de todas as formas possíveis para que Dilma renuncie ou para que sofra um impedimento.

Voltemos no tempo, para o século XIX.

Em 1831 o Brasil passou por uma grave crise política com a abdicação de Dom Pedro I. Após 3 anos de instabilidade e diversas revoltas e tentativas de golpe sofridos por uma regência trina (três regentes comandando o executivo até que D. Pedro II atingisse a maioridade e pudesse assumir como Imperador) decidiu-se adotar uma regência una, ou seja, um único chefe para o executivo, tendo sido realizadas eleições no ano de 1835.

O padre Diego Feijó, ex-ministro da Justiça e representante dos progressistas, venceu de forma muito apertada seu concorrente Holanda Cavalcanti. Assim como a vitória apertada da Dilma sobre o Aécio em 2014, a pequena diferença nas urnas foi também naquela época um prenúncio das dificuldades que seu governo iria enfrentar.

Padre Feijó sofreu com ataques e críticas vindas de seu próprio grupo político, cuja maioria discordava das suas ideias. Líderes da aristocracia rural – que controlavam tanto os eleitores quanto os meios de comunicação da época – influenciavam e manipulavam as massas populares contra o seu governo. A instabilidade político-institucional crescia na medida em que as divergências no parlamento limitavam suas ações.

Em 1836, seus opositores, liderados pelo regressista (grupo contrário às medidas liberalizantes, como maior autonomia para as províncias) Bernardo Pereira de Vasconcelos, constituíram maioria na Câmara, que passou a bombardear sistematicamente o governo. Criou-se um ambiente no qual a situação do governo parecia insustentável.

Curioso e intrigante é que no cenário político da época, tanto progressistas (aliados de Feijó) quanto parte significativa dos regressistas (seus opositores) pertenciam a um grupo político único: o dos liberais moderados, que deveria, em tese, compor sua base aliada. Tal qual, feitas todas as reservas, o PMDB de Temer e Cunha nos dias de hoje.

Para piorar a situação, Feijó não pôde mais contar com o apoio de seu grande amigo e aliado político, o deputado, jornalista, poeta e maçom Evaristo Veiga, que faleceu em 1837. Veiga, que ideologicamente identificava-se com Bernardo Pereira de Vasconcelos, apoiou Feijó na eleição de 1835 por considerá-lo mais pragmático e capaz de manter a ordem do que seu concorrente Holanda Cavalcanti.

Qualquer semelhança…

Não sei ao certo como o atual cenário político brasileiro vai se desenrolar. Pessoalmente não acredito que a gestão da presidenta Dilma será interrompida. Seu segundo mandato ainda não completou um ano e as medidas adotadas ainda não tiveram tempo de mostrar resultados. Pela sua personalidade, duvido que renuncie, e um eventual impedimento depende de um esforço de investigação que ameaça também o chamado “núcleo duro” da oposição.

Mas posso estar redondamente enganado, é claro.

E o Regente Feijó?

Impossibilitado de governar e incapaz de diferenciar opositores de aliados, incapaz de conter as diversas revoltas que ocorriam pelo país, Feijó renunciou em setembro de 1837. Os regressistas assumiram o poder com Araújo Lima como regente e Bernardo Pereira de Vasconcelos como ministro, e governaram até 1840, quando foi efetivado o “Golpe da Maioridade” que emancipou D. Pedro II e encerrou o período regencial.

Educativa nas Letras

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Queridos leitores do Blog, neste sábado, 29/03, as 10:30, irá ao ar o programa “Educativa nas Letras“, da rádio Educativa de Piracicaba, 105,9, especial sobre os 50 anos do Golpe Militar de 1964, do qual participei juntamente com o professor José Demarco Zinsly, professor Alê Bragion e professora Josiani Souza. Nesse bate-papo, falamos sobre a conjuntura do momento no qual ocorreu o golpe, tanto no mundo quanto no Brasil, refletimos sobre a censura, os movimentos de resistência e vários outros assuntos.

Estão todos e todas convidados a ouvir e a participar deixando aqui na caixa de comentários suas perguntas, críticas e opiniões, além de poder deixá-las também nas páginas do programa Educativa nas Letras e do Blog do Sasqua no Facebook.

Não percam!

Atualização: como já havia dito no facebook, o programa ficou bem legal, a despeito da infelicidade da minha cara horripilante nessa foto!

Apontamentos Sobre o Leste Europeu

A atual crise no leste europeu, protagonizada pela Ucrânia, mas que tem feito EUA e Rússia relembrarem os ares da Guerra Fria, apresenta-se como um emaranhado político, econômico e ideológico que desafia nossa capacidade de compreensão. Muitos elementos, muitas vezes contraditórios – como nacionalistas e neonazistas pró aproximação com a União Europeia – sobrepõem-se de tal forma que não dá, à primeira vista, para achar “o fio da meada” e compreender claramente a situação. Desse modo, é conveniente que, num primeiro momento, tentemos dividir o problema em partes menores, mais facilmente compreensíveis, só então refletir sobre como elas se articulam no quadro caótico da região.

Primeiro, é preciso observar atentamente o mapa político da Ucrânia. Os gráficos no mapa a seguir referem-se, além da diversidade étnica da região, aos resultados das eleições parlamentares de 2012, sendo:

– Patria (o partido de oposição, ligado à Tymoshenko)

– Partido das Regiões (do então presidente Yanukovych)

– Liberdade (partido nacionalista)

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As manifestações atuais, iniciadas na capital Kiev, tiveram como estopim a rejeição, por parte do governo do presidente Viktor Yanukovych, de um acordo econômico que garantiria ao país uma maior integração com a União Europeia, trazendo a promessa de novos ares para a desgastada economia ucraniana. O fato foi visto – interna e externamente – como uma guinada para o alinhamento com a Rússia, que teria “comprado” o governo ucraniano com suntuosas quantias de dinheiro e com promessas de baratear a exportação de gás, do qual a Ucrânia é dependente.

Viktor Yanukovych não é exatamente sinônimo de tranquilidade para os Ucranianos. Em 2004 saiu vitorioso em eleições marcadas por fraudes tão escancaradas que beiravam o grotesco. Como resultado, uma onda de protestos e greves tomou conta do país, especialmente na capital, Kiev, levando, no final daquele ano, a que uma nova eleição fosse decretada pela suprema corte do país. O evento, conhecido como “Revolução Laranja”, terminou com a vitória do candidato da oposição, Yushchenko. Em 2010, entretanto, Yanukovych voltou ao poder e desde então tem sido alvo de acusações de corrupção generalizada em seu governo e responsabilizado pela crescente crise econômica do país.

 E como a Rússia se meteu nessa história?

Um ponto fundamental nesse processo todo é a divisão da geopolítica econômica da região: a despeito da tentativa de integração da União Europeia, a Rússia tem se esforçado para forjar e liderar uma integração entre a Europa e a Ásia [a Eurásia]  – envolvendo, dentre outros, países como Irã e China. A proposta russa não é nova: em 2012 entrou em vigor o Espaço Econômico Unido, acordo entre a Rússia, a Bielorrússia e o Cazaquistão. A rejeição à integração com a União Europeia, assim, deu um sinal claro de que o governo ucraniano caminhava em direção ao projeto russo de integração da Europa com a Ásia, afastando as tradicionais potências ocidentais, reunidas sob a União Europeia.

 A Ucrânia tem um histórico complicado de relação com os países vizinhos: anexada à Rússia às vésperas da I Guerra Mundial, conseguiu sua independência somente em 1991 com o fim da União Soviética. Uma das inúmeras consequências foi tornar-se um país dividido política, étnica e culturalmente. Por isso o quadro lá é tão complicado: basicamente apenas a metade norte do país fala o ucraniano, sendo a outra parte de língua russa. As afinidades políticas também são divididas: não são poucos os que defendem laços mais estreitos com a Rússia, enquanto outra parte significativa tem verdadeira aversão pelos russos, verdadeiro trauma do período de domínio soviético. Quadro propício para o fortalecimento de grupos extremistas, como os nacionalistas, que ganharam a maioria dos votos na região de Liviv nas eleições parlamentares de 2012 e os neonazistas, que ganharam destaque na imprensa mais recentemente por suas manifestações.

E os Estados Unidos? A preocupação dos EUA não é apenas com o fortalecimento da Rússia, mas do próprio projeto da Eurásia, que significaria o fortalecimento de países considerados não-amigáveis (como o Irã) e de concorrentes diretos, como a própria China.  A lealdade da Ucrânia é fundamental para o projeto de liderança russo. A ameaça de sansões à Russia  para tentar inibir a expansão de sua influência e intimidá-la em seu avanço sobre os ucranianos foi mais um fator para aquecer os ânimos, uma vez que a China não tardou em se colocar ao lado dos seus parceiros russos.

E isso tudo é apenas uma leitura bastante introdutória e superficial sobre a situação por lá. Resta observar os desdobramentos.

[Atualização: entre a redação deste texto e a sua publicação, foi divulgado pela imprensa o resultado de um plebiscito na Crimeia, cujo resultado mostrou o desejo de sua população em separar-se da Ucrânia e incorporar-se à Rússia]

Programas sociais. (Para que e para quem?)

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Em sua coluna de 08/12/2013, intitulada “Lá no Brasil Invisível”, o jornalista Vinícius Torres Freire faz uma importante reflexão sobre os programas sociais do Governo Federal e seus impactos na vida das populações das regiões pobres do nosso país. Apresenta alguns dados interessantes, como o programa “Caminho da Escola”, desconhecido pela maioria das pessoas daqui, que garantiu o transporte escolar para pelo menos um milhão de crianças. Menciona também o “Programa Crescer”, que garante crédito para micronegócios e faz aquilo que muita gente diz não existir(na melhor lógica do “nunca ouvi falar, logo não existe”): complementa o Bolsa Família. Um terço das famílias que conseguiram abrir seus próprios micro-negócios por meio desse programa eram também beneficiárias do Bolsa  Família, como aponta Freire em sua coluna. Em termos práticos, isso significa que muitas famílias deixaram a situação de miséria e saíram da condição de dependentes da ajuda federal. É um dos fatores que ajudam a compreender, por exemplo, porque mais de um milhão e meio de pessoas abriram mão do Bolsa Família. Enquanto aqui, no “sul-sudeste maravilha”, insistimos em adjetivar negativamente o programa, chamando-o de bolsa esmola, curral eleitoral e qualquer coisa que o valha.

O que nos deve causar uma reflexão.

Colunista foi extremamente polido (ou politicamente correto, se preferirem) ao escolher o título. Não é “Brasil Invisível”, é “Brasil Ignorado”. Muitas vezes “Brasil Odiado” mesmo.

As críticas – em sua maioria vazias e demagógicas – aos programas sociais tem um terreno fértil naquele velho costume de odiar aquilo que temos medo de nos tornar e idolatrar aquilo que gostaríamos de ser. Temos medo de nos tornarmos pobres como os brasileiros da regiões mais distantes do centro-sul, que são um incômodo lembrete de que o mundo não é aquele paraíso de consumo e prazeres materiais dos Shoppings e do American Way of Life, que tantos de nós almejam ou pensam viver. São a incômoda voz que nos lembra, dia após dia, que temos dívidas ainda herdadas do nosso passado a serem pagas. E não conseguimos entender o impacto na vida das pelo menos um milhão de crianças que desde 2009 passaram a ter transporte para as escolas. De dentro do conforto do ar condicionado dos carros dos nossos pais, não conseguimos visualizar, quanto menos sentir, o que passam as crianças, jovens e adultos que precisam andar quilômetros debaixo de um sol escaldante, muitas vezes sem água e com alimentação precária, para assistir às aulas.

Enquanto o “sul-sudeste maravilha” não parar de olhar para o próprio umbigo, preferindo que a miséria e a pobreza que tanto teme desapareça como que por passe de mágica, os programas sociais, a dinâmica das eleições e principalmente os resultados das urnas permanecerão incompreendidos.

O sorteio dos grupos da Copa e o jornalismo complexado

No último dia 7 de dezembro, o portal UOL publicou uma reportagem sobre o sorteio dos grupos da Copa do Mundo, intitulada “Sorteio da Copa do Mundo expõe a europeus os ‘perrengues’ do Brasil”. A princípio, nada demais: apenas uma matéria falando sobre o impacto das diferenças geográficas e culturais que será sentido, como é de se esperar, pelos europeus. Mas aí, fui lá, ler a tal. Me chamou a atenção, sobretudo, o descarado “complexo de vira-lata”, aquela antiga mania de colocar-se inferior aos países do hemisfério norte. Mais do que o comportamento em si – infelizmente muito comum nos grandes veículos da imprensa nacional – o que me causou verdadeiro incômodo foi a naturalização desse complexo de inferioridade: a conclusão, após a leitura, é: no Brasil, vai ser ruim. O texto, em certos momentos, deixa explícito que os “europeus vão ter a oportunidade também de ver o perrengue de que é se virar em um país tão diverso”, pagando o preço por terem escolhido fazer a copa “em um país gigante e afastado do centro europeu”. Ao acabar de ler o texto do UOL, é quase possível sentir que somos, nós, brasileiros, biológica e geograficamente destinados ao atraso. Determinismo puro e simples. Nunca seremos bons como eles, os países do hemisfério norte. (Vale lembrar aos que não conhecem bem este blogueiro: não acho que tenhamos que ser bons como eles. Antes, me pergunto: o que é ser bom? Existe tal coisa? Por que devemos, supostamente, ser como eles?). Resolvi então comentar algumas das passagens da reportagem, que pode ser conferida na íntegra no link acima. Vejamos:

1) “Encararam nos últimos dias os atrasos dos estádios, o calor, as longas viagens e o fuso horário. O suficiente para perceber os perrengues que se ensaiam no Mundial.”

Aí, o anúncio das dificuldades. Nada demais. Criticar o atraso dos estádios é normal. É esse o papel da imprensa afinal. E, por mais que nas ultimas edições da Copa também tenham ocorrido atrasos, em maior ou menor grau, tal fato é sempre motivo de preocupação. Já o tom do “calor, longas viagens e o fuso horário” como ensaios do suposto perrengue soou mais como “uma amostra do sofrimento que vocês vão passar nesse país horrível”. Soou, mas não estava explícito. Aí vocês podem dizer que é implicância minha. Vamos ao segundo trecho.

2) “Logo na chegada, a Costa do Sauípe derretia cartolas estressados dentro de seus ternos europeus. Era com a gravata apertada sob o sol que Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa (Federação Internacional de Futebol), explicava que não falaria sobre o Itaquerão, atingido por um acidente, a não ser em entrevistas oficiais. Fumava e admitia o clima tenso.”

A pergunta que se deveriam fazer é: o que diabos eles estavam fazendo de terno europeu e gravatas apertadas no meio do litoral de um país tropical em pleno verão? Solenidades oficiais requerem trajes formais, é claro. Mas deixem-me dizer algo interessante: uma das coisas que nos permitiram sobreviver enquanto espécie, nos mostra a seleção natural darwinista, foi a nossa capacidade de adaptação ao meio. Era perfeitamente possível, aliás seria até de bom tom, realizar o sorteio com trajes mais leves e adequados ao clima do país anfitrião. Não precisaria ser bermuda chinelos e regata. Mas ficaria muito mais simpático e adequado, penso eu, ver um sorteio de Copa do Mundo com autoridades de calça e camisas leves, com semblante mais relaxado, do que todos cobertos de ternos quentes e suando feito loucos, o que, convenhamos, deixa qualquer um com péssimo humor.

O ponto é: o calor do litoral brasileiro é um dado natural, uma característica geográfica. Por mais que desejássemos, seria impossível baixar a temperatura para agradar nossos convidados do além-mar (e a mim também, que prefiro um friozinho do que o calor de Mordor que faz por aqui). Mais razoável portanto, esperar que as pessoas se adaptem ao clima do que vice-versa. Os cartolas estressados derretem e a culpa é do calor da Costa do Sauípe, ao invés dos ternos europeus e gravatas apertadas que vestem? Não faz sentido.

 3) “De reuniões e da vistoria ao estádio, saíram prazos para as conclusões das arenas. Das seis em construção, quatro estouravam a data-limite: Arena da Baixada, Beira-Rio, Cuiabá e Itaquerão, este último repetindo o maior atraso de um estádio de abertura, como o Soccer City. Até a Deus o presidente da Fifa, Joseph Blatter, recorria para pedir uma arena pronta.”

Aqui, quase tudo certo. Referência ao inconveniente dos atrasos e à preocupação que daí decorre. É papel da imprensa noticiar, criticar e cobrar. Mas será que o trecho do “até a Deus Blatter recorria” era mesmo necessário? É sabido (e uma simples pesquisa no Google mostraria) que atrasos nas obras da Copa foram frequentes também nas edições anteriores do evento. Parece que quem escreveu a reportagem, no entanto, fez questão de frisar que não importa o que os outros tenham feito de errado: nós fizemos pior; uma forma velada de dizer que se os outros atrasaram, nós atrasamos mais. Aqui, é sempre pior.

4) “Quando as cidades-sede foram se exibir a jornalistas estrangeiros, o que menos se viu foram projetos de desenvolvimento ou cronograma de estádio. Mato Grosso mostrou uma foto de sua Arena Pantanal, prevista para fevereiro, e repórteres japoneses riram”

Vejamos se entendi bem: o jornalista, ao invés de dizer ‘quando as cidades-sedes foram se apresentar a jornalistas estrangeiros’, preferiu escrever “se exibir”. Palavra que, indubitalvelmente tem um duplo sentido. Pode sim siginificar ‘fazer uma demonstração’, mas tem um outro sentido que é amplamente mais difundido: é uma forma jocosa de dizer “contar vantagem”. Não é assim que nos referimos aos adolescentes que se fazem de tudo para aparecer e chamar a atenção? Àquele amigo ou conhecido que sempre conta uma história na qual leva vantagem e é “o fodão”? Então, as cidades não foram se apresentar aos jornalistas estrangeiros, já que um dos retornos esperados da Copa é a ampliação do turismo. Não. Essas cidades estavam lá apenas para contar vantagem e se exibir. Comportamentozinho terceiromundista típico. 

Será que os japoneses riram mesmo da apresentação da foto? Ou houve uma risada por qualquer outro motivo e o jornalista deu esse sentido ao acontecimento?

5) “Mas não acabava aí. Chegou a hora de sortear as bolinhas e decidir quem iria atravessar o país continental. A Alemanha e a Inglaterra pegaram trajetos complicados: a primeira com dois jogos ao sol das 13h do Nordeste; a segunda, com a úmida e quente Manaus.”

“Mas não acabava aí”. Já os fizemos sofrer tanto. Será que se Camarões fossem jogar no Nordeste as 13h o jornalista consideraria também um trajeto complicado?

6) “Houve um clima de animosidade entre a cidade amazônica e o técnico inglês Roy Hodgson. Mas os britânicos vivem a contradição de tentar fugir do calor e, ao mesmo tempo, pedir para que o jogo com a Itália, no meio da floresta, seja mais cedo para agradar seus torcedores e sua televisão. Os EUA terão de viajar mais do que todas as outras seleções.”

Clima de animosidade entre o prefeito de Manaus [que não é nenhuma flor que se cheire] e o técnico inglês. EUA serem a seleção que mais irá viajar. Nada demais, apenas fatos noticiados. “Britânicos vivem a contradição de tentar fugir do calor e pedir para jogo com a Itália (…) seja mais cedo para agradar seus torcedores e sua televisão”. A Inglaterra está na dúvida se joga mais tarde para fugir do calor ou se joga mais cedo para agradar a televisão e os torcedores (preocupação válida e importante, pois envolve o dinheiro da TV e da audiência e a saúde dos jogadores, que podem sofrer com o calor), mas a culpa desse inconveniente é nossa, porque aqui faz calor? De novo, um um dado da natureza sendo culpado.

E, agora vou pedir licença e desculpas antecipadas a todos os leitores, especialmente aos que se incomodam com palavrões e expressões vulgares. Mas jogo com a Itália NO MEIO DA FLORESTA. MAS QUE PORRA É ESSA? É sério isso? De verdade que um jornalista brasileiro escreveu e um portal de notícias teve coragem de publicar um impropério, um disparate absurdo de proporções bíblicas desses? O  Estado é Amazonas, logo tudo é floresta? Manaus é uma gigantesca floresta, por acaso?

Vejam as imagens abaixo. A primeira é a concepção artística do estádio de Manaus; a segunda é uma foto aérea das obras.

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É. Ignorem aquele monte de ruas, avenidas casas e prédios em volta.

O lugar tem áreas verdes, uma linda vista para o rio, ao fundo. Que coisa primitiva, não? Essa é a exata imagem do meio de uma floresta! Aqui, um exemplo da reprodução e da concordância descarada com aquela ideia de que temos florestas, macacos e onças zanzando por todas as nossas cidades. E, o pior, que isso, caso fosse verdade, seria ruim! Afinal, verde, mata nativa, fauna preservada são coisas tão de país atrasado. Tão démodé. Só não sei se os estrangeiros que nunca vieram ao nosso país acham mesmo isso ou se alguns de nós é que se sentem assim. De longe, o maior dos absurdos matéria.

 7) “Longe da Europa, é hora de a Fifa mexer na tabela para agradar às parceiras TVs. É sempre assim em Copas. Mas, desta vez, terá de se mexer em um cronograma que teve 56 versões até agora. Tudo para atender as características do país gigante e afastado do centro europeu”

“É sempre assim em Copas”, ou seja, a FIFA sempre tem trabalho para ajustar a tabela de modo a agradar às emissoras de TV. Afinal, trata-se de um evento comercial, mobiliza grande quantidade de dinheiro e as TVs são importantes parceiras. “Mas dessa vez (…) Tudo para atender as características do país gigante e afastado do centro europeu”. E lá vamos nós novamente. Ajustar os horários com as TVs é sempre um problema, mas dessa vez, claro, aqui é bem pior, afinal, somos um país gigante e longe do centro. Ao que parece, esse jornalista entendeu de forma um pouco equivocada o conceito de “eurocentrismo” que nós, professores, ensinamos nas escolas. Pelo visto, precisamos reforçar esse conteúdo.

Longe de mim o nacionalismo ufanista. Quem convive o mínimo comigo sabe que passo longe disso. Mas convenhamos: o complexo de inferioridade dessa reportagem incomoda até o mais apátrida de nós. É quase um pedido formal para servir de capacho aos superiores seres do hemisfério norte.

Usando a vulgata da moda: se a imprensa já está assim agora, imagina na Copa…

 

 

Destino: Marte

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Os mais antenados provavelmente viram nos noticiários: a Nasa, agência espacial civil dos EUA, lançou na segunda-feira dia 18/11 a sonda MAVEN (Mars Atmosphere and Volatile Evolution). Trata-se, basicamente, de um tipo de satélite que irá orbitar o planeta Marte e coletar dados que permitam compreender a evolução da atmosfera do planeta vermelho e entender porque ele se tornou deserto seco e inóspito que é hoje. Marte recebeu e recebe ainda hoje inúmeras missões (Vicking nos anos 70, Spirity e Opportunity na década de 2000 e, atualmente o Curiosity, em pleno funcionamento em sua superfície são alguns exemplos) cujos resultados sugerem que num passado longínquo nosso vizinho vermelho possuía uma atmosfera espessa e água corrente em sua superfície. Há alguns bilhões de anos, Marte pode ter sido um lugar rico e fértil, com todas as condições de abrigar vida, assim como a Terra. O que aconteceu por lá então? Como ele se tornou o que é hoje? Buscar evidências que nos ajudem a responder essas questões é o objetivo da MAVEN.

O projeto não foi barato: 671 milhões de dólares. Serão 10 meses de viagem pelo espaço para chegar ao destino na órbita marciana. Há sempre os que perguntam porque gastar tantos recursos estudando o espaço enquanto há tantas coisas a se resolver por aqui, em nosso próprio planeta. A resposta, ao meu ver, é simples: estudar marte e os demais planetas do nosso sistema solar contribui para conhecermos a nossa origem e pensarmos o nosso destino. Como já disse uma vez o astrofísico Neil deGrasse Tyson, compreender porque Marte é o deserto que é hoje ou porque Vênus tornou-se um inferno caótico e extremamente hostil (aqui, um documentário sobre Mercúrio e Vênus) pode nos ajudar a evitar um bocado de problemas por aqui. Mas a sonda MAVEN não é um projeto isolado, ela faz parte de um plano muito, muito maior. Foi um primeiro passo de um programa que pretende enviar uma missão tripulada ao planeta vermelho em meados da década de 2030. Vejamos, de forma resumida, o cronograma proposto pela Nasa:

– 2013: lançamento da Maven, para estudar o desenvolvimento da atmosfera e do clima;

– 2016: lançamento da sonda InSight, para estudar o interior do planeta. Marte tem núcleo líquido ou sólido? Por que a sua superfície não é composta de placas tectônicas que se movem, como a Terra?;

– 2016: lançamento da OSIRIS-REx, missão robótica para explorar o asteroide 1999 RQ36 e trazer amostras para a Terra em 2023;

– 2017: lançamento de missões não tripuladas para asteroides além da órbita da Lua;

– 2018: lançamento de novas missões robóticas para Marte, para realizar estudos científicos e preparação para a exploração humana;

– meados da década de 2020: missões tripuladas para asteroides além da órbita da Lua;

– meados da década de 2030: missões tripuladas para Marte.

Muitos comparam a exploração espacial com as navegações europeias dos séculos XV e XVI, mas eu não acho uma comparação justa. Aqueles exploradores se lançaram rumo ao desconhecido, além do que era possível para eles, na época, saber com significativa precisão. Não é o nosso caso. Apesar de todas as dificuldades, perigos e desafios a superar, uma analogia mais justa seria a da criança que vai pela primeira vez à praia e enfrenta as ondas do mar: uma aventura, sem nenhuma dúvida incrível, estimulante, empolgante. Mas indo apenas até onde o olhar atendo dos pais possam garantir a segurança. Se o universo é como o oceano, nós ainda somos como as crianças que caminham apenas até a água começar a bater na cintura.

O PS4 e o padrão de consumo no Brasil

ps4

O PlayStation 4, nos EUA, custa $400,00. No Brasil, sairá pela bagatela de R$ 4000,00.

E, pelo que anda circulando pelas redes sociais, não faltam mal-informados ou mal-intencionados (quando não ambos) a culpar furiosamente o governo federal e os (sim, abusivos) impostos. Mas, a despeito dos impostos serem realmengte altos, isso nem de longe explica tamanho disparate. Leo Rossatto, do blog “Aleatório, Eventual e Livre”, foi direto na veia. Recomendo muito que leiam o texto dele na íntegra, aqui. Mas faço um breve resumo das ideias, com as quais estou totalmente de acordo:

Primeiro, as contas:

Preço nos EUA = $400,00.

Imposto no Brasil: 60%

$400,00 x 60% = $640,00.

Mais 10% para serviços de logística: $640 x 10%= $704,00

Cotando o dólar em R$2,40 (elevado) temos: $704,00x 2,40= R$ 1689,60

Arredondando para cima, JÁ COM IMPOSTOS E TRANSPORTE, o PS4 custaria R$1700,00.

Nada, nada explica esse preço de quatro mil. A não ser, como certeiramente apontou o blogueiro, uma questão cultural. É a lógica do mercado: os preços abusivos (de videogames, celulares, carros, shows, etc) se manterão pelo simples fato de que existe público, a clientela é garantida. Vivemos na sociedade do consumo como diferenciador social. Quem tem dinheiro compra, de olhos fechados, para poder exibir de boca cheia o novo brinquedo caríssimo. Quem não tem, dá seus pulos: com os últimos 4 governos, além do atual, fomentando um modelo de crescimento baseado no consumo – e na facilidade de crédito – não faltarão parcelamentos, cartões de crédito e endividamentos para ter o tal aparelho.

Deixo aqui, a mesma resposta que dou aos meus alunos quando reclamam comigo dos preços da cantina da escola: o dono da cantina está certíssimo e, se fosse eu, cobraria até mais. Por que? Porque vocês pagam. Simples.

O mesmo se aplica à Sony e às demais multinacionais: o preço é abusivo, mas as pessoas compram – e o pior, sentem-se bem com isso.

Mudança nesse quadro? Só quando o padrão de consumo do brasileiro mudar. Quando priorizarmos a qualidade e o preço ao invés do status de ter algo caro e pouco acessível.

Mas aí, meus caros, acho que estou querendo demais.

Até lá, continuarei jogando DOTA 2, de graça, na versão para Linux do Steam.

Esquerda ou Direita?

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Curiosa a manchete do jornal Folha de São Paulo de hoje: “Ideologia interfere pouco na decisão de voto, diz Datafolha”. Em linhas gerais, o que chamou a atenção foi o fato de o eleitorado classificado pela pesquisa como das alas centro-direita e direita demonstrarem elevado índice de intenção de voto em Dilma Rousseff: entre os 11% que classificados como “direita”, 39% declararam votar na atual presidenta. Daí a chamada afirmando que a ideologia tem pouco efeito sobre a intenção de voto.

O dado, contudo, não chega a ser surpreendente. Dentre as possíveis explicações podemos mencionar a situação econômica do país e a postura conservadora do governo petista frente a questões como reforma agrária e meio-ambiente, entre outras, colocando-o mais como um governo de centro do que de esquerda. Mas o elemento mais relevante para esses dados, em minha opinião, é outro: a metologia utilizada na pesquisa. Não sou especialista na área, mas creio que não é necessário o ser para estranhar a forma como as pessoas foram classificadas em cada lado do espectro ideológico: por meio da concordância com afirmações sobre “valores sociais e políticos” que, supostamente, revelariam tendências de esquerda ou de direita. Afirmações genéricas, vagas e muitas vezes não excludentes entre si, que nem de longe dão a sensação de precisão. Por exemplo, no quesito ‘migração’, as afirmações são: “pobres que migram contribuem com o desenvolvimento e a cultura” (esquerda) e “pobres que migram acabam criando problemas nas cidades” (direita). Como assim? O que o instituto chama de “desenvolvimento”? O que são os “problemas” causados na cidade? Violência, criminalidade? Desemprego? Será mesmo que as duas afirmações são mutuamente excludentes? Eu, por exemplo, me arrisco a dizer que nem só os pobres migram e que o fenômeno da migração pode contribuir tanto para o desenvolvimento econômico quanto causar problemas nas cidades, não só relativos à criminalidade como a afirmação na pesquisa permite sugerir (dado o conjunto das outras afirmações), mas também de infraestrutura, por exemplo. E a falta de clareza se repete em diversos outros tópicos, como a pena de morte, adolescentes infratores, e as drogas. O que me pareceu, ao ler sobre a metodologia utilizada, foi que grande parte das afirmações feitas aos entrevistados soam arbitrárias, partindo de ideias sobre esquerda e direita fortemente enraizadas no senso comum e representando valores subjetivos que permitem resultados bastante distintos.

De todo modo, seria muito interessante olhar mais detalhadamente a metodologia – indo além daquilo que a reportagem apresenta – bem como ver outros estudos sobre o mesmo tema, para contrapor os dados.

O feminismo e meu relato pessoal, visto da perspectiva de uma mulher cisgênera lésbica e miscigenada. *

*(não, eu não acredito que possa falar por todas nós, então estou me resignando ao meu espaço e a minha posição, sem que a voz de minhas irmãs seja calada)

  Por Gabriella Jude

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Meu nome é Gabriella e eu escrevo. Talvez essa não seja a melhor maneira de iniciar um texto de opinião, mas é a minha maneira. Eu escrevo sobre coisas, escrevo sobre a rotina, escrevo sobre livros e principalmente escrevo sobre o meu assunto preferido: mulheres.

Eu tenho dezenove anos e me identifico afetivamente como lésbica. Socialmente, posso ser lida como parda, embora algumas pessoas possam dizer que sou negra. Acho politicamente importante que eu me posicione enquanto mulher negra e lésbica, talvez para retirar toda essa carga ruim de considerar essas palavras como ofensivas. Sou também uma mulher cisgênera (significa socialmente lida como mulher no nascimento e que também me identifico como mulher, ou, simplificando, uma pessoa não trans*).

Hoje em dia, há quem diga que estamos todxs em pé de igualdade: homens e mulheres, cisgêneros ou trans*, heteroafetivos, homossexuais, lésbicas, bissexuais, pessoas brancas e não-brancas. Há quem diga que transcendemos o preconceito. Que a desigualdade apresentada na sociedade é mínima.

Essas pessoas estão erradas.

Não é uma questão de opinião. Não precisamos de pesquisas e estatísticas, de artigos científicos ou de análises antropológicas muito profundas para enxergar o que está errado aqui.

A quem quer que esteja lendo esse texto, eu faço um pedido. Durante a leitura, faça o exercício da empatia. Perceba seus privilégios, primeiramente, por exemplo em algo banal como ter acesso à internet e poder ter contato com uma visão que não a culturalmente predominante. Essas palavras que escrevo agora não são uma análise social com fundamentos científicos ou muitos números. Esse é um pedido de socorro.

Enquanto você lê essas linhas, mulheres são espancadas e mortas dentro de seus próprios lares. Por seus pais, tios, maridos, irmãos. Amigos. Enquanto você lê essas linhas, mulheres negras, pobres, cis e trans* são obrigadas a se prostituir para não morrer de fome. Enquanto você lê essas linhas, garotas de treze anos enfiam o dedo na garganta e vomitam o almoço para se parecer um pouco mais com as mulheres photoshopadas das revistas. Enquanto você lê essas linhas, as mulheres estão sendo abusadas dentro do transporte público. Enquanto você lê essas linhas, garotas lésbicas estão sendo estupradas para “aprenderem” a gostar de homens. Enquanto você lê essas linhas, mulheres trans* estão sendo mortas nas esquinas e tendo algo que deveria ser tão básico e vital como a própria identidade sendo questionada.

Foi pedido a mim que escrevesse um texto sobre o feminismo dentro da minha visão. Eu não pensei que fosse tão difícil. Desde escolher algum tópico para ser abordado quanto ter de me obrigar a olhar novamente ao meu redor e me lembrar da chacina de mulheres que ocorre a cada dia.

Essas mulheres das quais falei: elas não são mulheres distantes de vocês. São suas mães, suas irmãs, suas namoradas, suas amigas. Essas mulheres são eu.

Diariamente leio frases espalhadas por aí dizendo sobre como o feminismo se tornou obsoleto. Que as mulheres já conquistaram todos os seus direitos, afinal –uau – já podem até votar ou trabalhar fora. E nos esquecemos que nosso espaço “conquistado” dentro do mercado de trabalho não foi tanta evolução, afinal, quando paramos pra pensar que mulheres ainda recebem 30% a menos que um homem para exercer a mesma função. O salário das mulheres negras chega a ser 70% menor do que o de homem branco. Sobre as mulheres trans*? Não podemos nem mesmo buscar estatísticas. Quase 100% das mulheres trans* se encontram atualmente desempregadas ou no ramo da prostituição.

Isso é violência.

Quando nas novelas e nos filmes vemos mulheres sendo mortas pelos seus parceiros em nome do “amor”, isso é violência. Quando mesmo dentro do sistema jurídico chamamos isso de crime passional, isso é violência.

Quando dizemos a uma garotinha desde pequena como se vestir, como se portar, por onde e até que horas deve andar porque, afinal, temos que nos precaver das investidas dos homens, já que ao nos darmos liberdade de fazer o que quisermos, também damos liberdade a eles de fazer o que quiserem conosco: isso é violência.

Quando tratamos mulheres como chocadeiras, privando-as da autonomia do próprio corpo, do direito de escolher como e quando ter filhos e até mesmo obrigando-as a gerar uma criança do seu abusador: isso é violência.

Três de cada cinco mulheres são estupradas e/ou espancadas NO MUNDO. Há quem diga que o feminismo proclamou a guerra entre os sexos. Eu só posso dizer que nessa guerra, somos o lado que pede paz.

Falando por mim, inúmeras vezes me foi perguntado qual motivo me levava a ser feminista. “Ser mulher”, eu respondo. Muitas vezes essa resposta não basta. Ser mulher, ser negra, ser lésbica, ter desenvolvido transtorno de auto-imagem graças à uma cultura misógina e gordofóbica, ter crescido ouvindo me dizerem o que eu deveria e o que eu não deveria ser para que os rapazes gostassem de mim e não me fizessem mal, ter sofrido agressão, ter sofrido abuso, viver em meio a agressões e abusos, ter tido minha voz calada quando tudo o que eu queria era gritar por socorro, ter sido ensinada que mulheres são falsas e não podem ser amigas, ter sido ensinada que não existe amizade verdadeira entre homem e mulher, ter sido ensinada a ser sozinha (afinal, mulheres não fazem amizade com ninguém), ter sido ensinada que me dar o respeito era o extremo oposto de respeitar meu corpo e minhas vontades.

Foi me pedido que escrevesse um texto sobre feminismo e eu pouco escrevi sobre a luta, sobre o movimento, sobre o posicionamento político. Eu falei mais sobre a cultura patriarcal que nos rodeia e talvez tenha me dispersado um pouco. Peço desculpas. Mas também peço que a partir de hoje olhem ao redor da maneira que pedi: com empatia, reconhecendo seus privilégios. Que compreendam que a justiça e a igualdade não aconteceram, estão longe de acontecer. Que nosso grito é legítimo. E que vamos lutar até que todas sejamos livres.

A Violência Pública e o Estado Policial

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  Quando os índices de violência de um Estado aumentam substancialmente e a resposta dos responsáveis pela segurança pública é “a polícia está mais eficiente porque o número de prisões está aumentando” fica evidente que algo está terrivelmente errado. Não se trata apenas do Estado tentar se livrar da responsabilidade pelo problema – responsabilidade aqui entendida como culpa – afirmando que faz sua parte, via ação policial. O problema é muito mais amplo. É assustador ver explícito, em todos os meios de comunicação, essa mentalidade retrógrada do poder público. Temos duas implicações não mutuamente excludentes decorrentes dessa resposta.

  A primeira é o atestado de incompetência assinado pelas autoridades ao assumir publicamente que tem prendido mais pessoas na mesma proporção em que a criminalidade aumenta. O Estado mostra-se incapaz de compreender as causas da violência bem como de controlá-la, assumindo que não tem nenhum controle e que tem como única medida a repressão post facto. Em outras palavras: a população não deve ter esperanças quanto a melhoria da segurança e, pior, deve conformar-se apenas com a possibilidade de punição para os criminosos. Deve continuar refém do medo, torcendo para que a violência não a atinja e as forças repressoras a vingue seja pelo ato sofrido, seja pelo medo sentido. A satisfação ao ver os Datenas da vida nas emissoras de TV.

  A segunda, ainda mais assustadora, é a própria concepção policialesca das autoridades: a visão de que tudo se resolve via ação repressora. Uma visão assustadora que remete aos Estados policiais e autoritários do século XX. A lógica subjacente é aquela antiga, do tempo da ditadura do Estado Novo, de 1937 a 1945 e da militar, de 1964 a 1984: aos cidadãos cabem os deveres. Ignora-se totalmente aquela concepção de cidadania expressa pelo sociólogo José Murilo de Carvalho, segundo a qual cidadão é quem exerce plenamente seus direitos, classificados em três categorias: civís (liberdade de expressão, liberdade de ir e vir, inviolabilidade do lar e da correspondência, etc), sociais (saúde, educação, alimentação, lazer, moradia) e políticos (votar, elegibilidade, agremiação partidária, sindical, etc). Cidadão é quem segue a lei, quem cumpre deveres. E agrade agradece a generosidade dos governantes quando recebe migalhas daquilo que deveriam ser seus direitos. Ponto.

  Há tempos que o Governo do Estado de São Paulo defende com unhas e dentes o tratamento de questões sociais como caso de polícia. Vide a intervenção na cracolândia, a desocupação de Pinheirinho e a repressão desproporcional durante os protestos nas ruas. Enquanto essa visão predominar, viveremos nesse círculo vicioso: as causas da violência não serão combatidas, a miséria continuará se espalhando e a população continuará ameaçada pela violência não apenas dos “fora-da-lei”, mas do próprio Estado, com uma polícia truculenta, despreparada e sem condições adequadas de trabalho, comandada por pessoas que vêem na repressão a solução para problemas que poderiam ser evitados caso se priorizasse a prevenção.

Difícil permanecer otimista nesse contexto.

Aqui, o link para a reportagem do Bom Dia Brasil sobre o assunto.

[Atualização em 26 de setembro de 2013 às 15:54: aqui mencionei o Estado de São Paulo, ao qual a reportagem que motivou o post se referia. No entanto, a mesma lógica se aplica as esferas municipal e federal]